Parte 3 – Plantações de Eucalipto

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A monocultura de eucalipto domina a paisagem do Espírito Santo. Este não é um projeto inocente de plantação de árvores. Na verdade, em algumas regiões estima-se que 80% das terras estão cobertas por monoculturas de eucalipto e cana de açúcar. Este é o caso dos municípios de Conceição da Barra e São Mateus, localizados no extreme norte do estado.

As plantações de eucalipto foram instaladas durante a ditadura military e começaram a suas operações por terras indígenas tupiquins e guaranis, tal como em território quilombola. Estas comunidades têm lutado por décadas para sobreviver às contínuas tentativas d edespejo, contaminação dos córregos e rios, envenenamento por pesticidas, destruição de seu modo de vida e biodiversidade, destruição da Mata Atlântica, exploração do trabalho em condições terríveis, e as ameaças constantes da indústria do eucalipto.

Eucalipto é uma árvore de rápido crescimento que tem um ciclo de seis anos em clima tropical em baixa altitude.O Brasil é o primeiro país a permitir persquisas em árvores geneticamente modificadas que podem produzir mais polpa, crescer mais rápido e em altas altitudes.

Em 2008, Plantar SA* começou um programa de trabalho com mulheres supostamente para “empoderar mulheres” das comunidades quilombolas empregando-as como “guardiãs” das plantações. O trabalho consistia de longas jornadas, com contato direto com pesticidas e pouco apoio da empresa. Programas de exploração de trabalho como este sempre geram conflitos internos e entre comunidades e danos às organizações locais.

As comunidades quilombolas são um grupo cultural de afro descendentes que no periodo colonial brasileiro não aceitavam a escravidão e se revoltavam contra os colonizadores portugueses, estabelecendo suas próprias comunidades à margem do sistema escravocrata. Os Quilombolas passaram a ter o direito sobre suas terras reconhecido na legislação brasileira de 1988, mas ainda há muita discriminação contra eles e pouco regularização de seus territórios. As empresas que exploram a região se aproveitam e aprofundam estas desigualdades.

Plantar SA cresceu e lucrou destruindo modos de vida e o meio ambiente local e social.Algumas áreas de plantios são consideradas projetos de “compensação de carbono” a partir do slogan “redução dos gases do efeito estufa” . Isto permite a empresa gerar créditos de carbono e vendê-los no mercado de carbono poluente. Sustentando um modelo ambientalmente destrutivo de monocultivos e produção de aço, os projetos de compensação não melhoram em nada o clima.

Veja mais informações sobre:

Os impactos das plantações de eucalipto As compensações de carbon Plantar SA

Árvores geneticamente modificadas Para apoiar as comunidades quilombolas da região


** Plantar SA é uma empresa de aço e de plantios responsável por destrutivos e largos monocultivos em Minas Gerais e também opera trabalhos terceirizados de campo no Espírito Santo para a Fibria/Aracruz Celulose.

Sineide dos Santos Correia

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Sineide trabalhou para Plantar SA pulverizando pesticidas por mais de dois anos e meio até que sua saúde ficou comprometida e ela foi forçada pela empresa a deixar o trabalho se nenhuma indenização. Ela estava em contato regular com um inseticida tóxico chamado Mirex-S, que foi apresentado como causador de cancer, efeitos nocivos no estômago e revestimentos intestinais, danos ao sistema nervoso e ao seistema reprodutivo, entre outros. Por várias vezes Sineide desmaiou enquanto trabalhava no campo e recebeu apenas alguns minutes de descanso antes de ser forçada a voltar a trabalhar. Ela agora sofre de recorrentes problemas de saúde. Sineide é contudo uma mulher trabalhadora que cria várias species de aves, porcos e vegetais. Ela tem um coração generoso, completamente direta no seu jeito de falar e uma excelente cozinheira!

“Trabalhei 2 anos e 8 meses para Plantar. Quando eles contrataram a gente falaram que era para trabalhar no viveiro, mas depois fizeram o treinamento que era para trabalhar no combate a formiga com mirex. Apenas quando chovia fazia roçada e marcação de plantio.

A comida era muito pouca e ruim e a água barrenta, quente e com gosto de cloro. Saia as 4:30 horas da manhã e não tinha hora para voltar. Em geral voltava as 18 horas.
As pessoas que fizeram o treinamento com a gente avisaram que os produtos davam problema na respiração, no sangue, intestinal, dor de cabeça, vômito. Tinha que carregar caixas pesadas na cabeça e começou a me dar dor na coluna.

Eles só deram duas mudas de roupas, então tinha que vestir a mesma roupa contaminada um dia depois do outro. Voltava para casa com a mesma roupa e eu mesma é que lavava no fim de semana. Um dia reclamei de falta de água e o encarregado me disse: “não me interessa se você está com sede, tem que roçar todo o talhão, senão não saímos daqui antes das 18 horas.”. Porque reclamei, ele lançou falta no meu cartão.

Uma mulher caiu no buraco com bomba nas costas e eles falaram que foi falta de atenção, sendo que o chão fica todo forrado com folhas e galhos de eucalipto. Hoje a perna dela tá secando e ficam jogando do INSS para casa, sem receber por 2, 3 meses. Só não mandam embora porque foi acidente de trabalho.Se você faltasse 1 dia, eles descontavam 2.

Por que as mulheres ainda trabalham neste serviço? Para poder sustentar os filhos, muitas são mães solteiras.”

Sineide dos Santos Correia – “Perdi minha saúde nesta firma”

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“Depois de 1 ano que estava trabalhando na Plantar, comecei a sentir dores diariamente. E eu usava máscara.

Quando eu deitava o meu coração batia forte e eu nunca tive problema de coração. Tinha ressecamento na garganta, dificuldade de respirar. Sentia dor de barriga com cólica e ficava de 3 a 4 dias sem fazer cocô e quando fazia parecia que era uma cola. Meu fluxo menstrual aumentou tanto que tinha que usar calça descartável e trocar a cada 1 hora, porque absorvente não segurava, parecia um rio.

Tinha crise forte, convulsão, de cair no chão e falar tudo embolado, até 2 vezes por mês. Eles me levavam no médico e ele só dizia que era nervo. Me aplicava remédio, eu dormia e depois me mandava para casa. Só passava remédio de dor de cabeça.

Tive que comprar com meu próprio dinheiro um monte de remédios, para fraqueza nos ossos, coluna, sangue. Tomava tanto remédio que me fazia vômito.Até hoje não tenho mais apetite, parece que meu estômago fechou, diminuiu e sinto todo o tempo dor na barriga. Sinto moleza, desânimo, depressão.

Eu pensava que o produto não fazia tudo isso, mas quando eu percebi que era, sai. Se eu continuasse lá, eu nem existia mais. Estava enfraquecendo a cada dia. Eu me acabei nesta firma. Perdi minha saúde nesta firma.Esse serviço da Plantar é cativeiro. A gente já sofreu muito neste serviço”.

Demitidas sem explicação

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Ivonnete Mota Alves, Luzinete C. Carvalero e Ana Aparecida Caldeira Carvalho trabalharam para a Plantar SA durante a fase do “empoderamento das mulheres” durante um período de cerca de 18 meses. Elas saiam para o ônibus aproximadamente às 5 da manhã e voltavam às 20 horas, cinco veze por semana. Um dia depois do trabalho a empresa mandou dizer a elas que o contrato havia terminado. Não deram nenhuma explicação, nem indenização e disseram para não voltar mais.

Ivonete Mota Alves

“Ficharam as mulheres para combater formigas, mas depois de 2 meses passamos a fazer de tudo: pegar na enxada, na foice. Em época de chuva a gente ia roçar na foice e no sol fazíamos o coveamento para plantarem depois o eucalipto.

Eu trabalhava com Mirex. Usava luvas e máscaras. As bombatas sempre estavam furadas ou soltando as mangueiras e a gente reclamava, mas eles demoravam a concertar. Os EPIs (equipamentos de proteção individual) eles diziam que era para trocar de 6 em 6 meses e quando a gente pedia para trocar, os encarregados enrolavam a gente e passávamos mais meses com a mesma máscara vencida.

Depois de 9 meses me mandaram embora sem justa causa, mas me prometeram que depois de 1 ano eu poderia me fichar novamente, mas eu já tentei e nada.”

Luzinete

“Trabalhei 2 anos na Plantar. Me mandaram embora sem justificativa. Estamos cercada de acácia e eucalipto, então não podemos mais plantar na comunidade.”

Ana Aparecida

“Trabalhei 2 anos na Plantar, que nos ofereceu fazer curso para combate à formiga. Não sei porque mandaram embora. Estamos desempregadas.

A gente tenta plantar uma horta para ao menos a gente comer e as plantas não saem, porque não tem água, porque somos cercado de eucalipto e acácia.

Eles prometeram dar emprego depois de 1 ano, mas ficam nos enrolando. Acordamos e ficamos de braços cruzados, sem ter como trabalhar.

Tinham encarregados que eram cruéis com a gente, cobravam pressa. E com aquelas máscaras, tínhamos que tirar um pouco, porque senão ficávamos tontas, principalmente quando o sol esquentava. Uma vez me deu tonteira quando estava usando a mangueira do trator para molhar as mudas de eucalipto. Era muito pesada, eu cai e o trator saiu me puxando.

Sentia dor nas costas, dor de cabeça. Era um trabalho perigoso, porque nas palestras eles explicavam que o mirex podia dar câncer, que não tinha cura, que empolava a pele. A gente sentia medo, mas não tinha jeito, não tinha outro trabalho. A gente chega a passar necessidade de comida. As pontas de galho que eles dão, não resolvem o nosso problema, tirando só uns R$ 200,00 por mês. Não dá para viver só com isso.

Tem dias que acordo e dá vontade de chorar me perguntando o que fazer com as crianças, que alimento dar a elas?

Não tem emprego, não tem córrego para pescar, não tem terra para trabalhar. Mandioca, couve…, nada sai com a falta de água.”

Gessi, Nilcéia e Creuza Mota Alves – Catadoras de eucalipto: “Nosso conhecimento cultural está sendo esquecido”

Gessi, Nilcéia e Creuza são da Associação dos pequenos agricultores e lenhadores de Conceição da Barra, Espírito Santo (APALCB). Elas são mulheres quilombolas da comunidade de Roda D´Água. Depois que um harvest da árvore de eucalipto termina o trabalho, elas começam a coletar o resto dos galhos que são usados para fazer carvão.

“Trabalhamos no facho pela APALCB (Associação dos pequenos agricultores e lenhadores de Conceição da Barra). Primeiro a Aracruz passava 5 hectares para cada associado catar os galhos e nesta época eles ainda deixavam bastante madeira. Mas de um tempo para cá, eles tiram a maior parte da madeira e daí começou o sofrimento.

As pessoas fizeram muitas dívidas, porque para vir para cá você precisa de carro. Hoje 5 hectares não dá para encher o caminhão. Eles dão agora 8 hectares. Antes eles passavam uma área para gente trabalhar de 30 em 30 dias, depois a cada 90 dias. Eu perguntei para o responsável da Fibria: “como uma família vai viver recebendo uma área de 3 em 3 meses para encher um caminhão?” E ele respondeu: “se vocês acham que não está bom, então deixa lá que a madeira apodrece e vira esterco.”

Também tem o movimento quilombola que pressiona e eles acabaram melhorando um pouco. Liberaram uma madeira grossa, porque as pessoas tavam cortando o eucalipto porque no facho não tinha madeira. Eu cheguei a trabalhar lá, mas não aguentava porque é muito pesado para as mulheres, ainda mais no sol quente, estávamos adoecendo. Ficaram só os homens, mas agora já tiraram deles também e estamos todos catando as pontas dos galhos que até isso não iam deixar mais. A empresa tava com uma máquina moendo tudo e dizia: ‘ agora não precisamos de ninguém para limpar a área, porque a máquina vai deixar só o pó da madeira”.

É um serviço pesado para nós mulheres, mas como não temos com o que mais sobreviver, temos que enfrentar com chuva ou sol, levantando de madrugada para fazer marmita. Chegamos aqui entre 7 e 8 horas e ficamos o dia inteiro aqui. Chegamos em casa quase às 20 horas, cansadas. O braço dói demais de ficar cortando os galhos no facão. Isso é muito sofrido para as mulheres. Dá tristeza de ver a nossa casa, terreiro e criações sem cuidado, porque não temos tempo. Os saberes ficam esquecidos. As mulheres estão muito ocupadas e cansadas com este serviço. É difícil hoje uma mulher que aguenta ainda cuidar de horta. O eucalipto é sofrimento. Não temos tempo de cuidar da nossa cultura. Isso não é vida para nós mulheres. Me dói muito. É trabalho escravo. Estamos vivendo no cativeiro. Só falta colocar corrente.

Nós não estamos nesta briga porque queremos. Se tivesse outra coisa para nós, não estaríamos nisso com certeza. A empresa se aproveita do fato das comunidades não terem outra opção. A gente só vive em conflito com a empresa. A vontade é nunca mais voltar naquele lugar de trabalho, mas como fazer para sobreviver sem dinheiro? Temos um pedacinho de terra, mas como investir nele sem dinheiro? A empresa não quer ajudar ninguém, ela quer é encher o bolso dela de dinheiro. Fica inventando uns projetos porque precisa de uns selos para vender e daí mostra que está ajudando as comunidades. Faz uns trabalhinhos de nada, tira foto e mostra. Pela empresa, as comunidades quilombolas e indígenas não existiriam mais.

Depois da chegada do eucalipto a nossa cultura acabou. Antes vivíamos do que plantava e colhia. Tinha a farinheira, plantávamos mandioca, fazia farinha, vendia, comia, tinha ração para nossos animais como porco, galinha e gado. A comida dos nossos filhos de manhã era batata, aipim, beiju. Depois feijão de corda, guandu, fava. A carne era de porco da gente mesmo, da nossa galinha, ovos caipira além dos peixes dos córregos (traíra, piaba, judiá, judeu). Café, de calda. O olé era o dendê e a banha de porco. Também tinha as ladainhas, as festas e o forró do interior. Quem dera nós pudéssemos criar nossos filhos e netos como fomos criados, na fartura. Na roça do meu pai chegava a estragar mamão, banana… porque todo mundo tinha esta lavoura. Isso aqui era tudo mata nativa. Com a chegada do eucalipto acabou tudo. Devastou tudo. Temos muitas saudades. Minha mãe chorava quando via as árvores sendo arrastadas pelo trator. Nossas terras que eram o lugar da gente sobreviver, acabou. Também acabou água, não tem mais água em nenhum córrego. Como vamos viver sem água? Meu menino de18 anos me perguntou como é um pé de arroz, porque nunca viu e eu que plantei tanto.

Outro dia estávamos entrando na área para fazer o serviço e as máquinas entraram jogando veneno para todos os lados. Pedimos para eles pararem: “vocês querem acabar com a nossa vida?” Sentimos um cheiro muito forte pelo veneno que eles batem e fica contaminado na terra. É um tal de arder nariz, de sentir dor de cabeça. A gente não passa bem dentro destas áreas. Tem um produto que eles passam no eucalipto que mesmo ele morto, o cheiro não sai.

Jorge Francelino (ex-trabalhador da Plantar SA)

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Jorge trabalhou para a Plantar SA nos anos 2000s em condições deploráveis. Ele perdeu sua saúde e modo de vida e tem brigado por anos na justiça por alguma indenização. Além do insecticida Mirex-S ele estava em contato direto com vários produtos químicos altamente tóxicos, incluindo o herbicida Roundup da Monsanto, que tem sido associada a uma diversos problemas de saúde e de doenças, incluindo Parkinson, cancer e autismo. Ele ainda aguarda por justiça.

“Eu trabalhei na Plantar e depois que eu adoeci, o encarregado assinou o aviso e me dispensou. Trabalhei 1 ano e 2 meses mexendo com veneno Mirex, Scoult, Roundup e um produto com o nome de Amarelão para combater a ferrugem da folha do eucalipto.

Eu desmaiei 2 vezez no campo e depois disso eles me trouxeram para trabalhar no viveiro, mas foi quando o encarregado queria que eu assinasse o aviso e eu pedi para ele aguardar eu melhorar da minha saúde.

Desde que me dispensaram em 2002 eu não gozei mais de saúde, estou sempre doente e não trabalhei mais para ninguém. Eu entrei na justiça com um advogado, mas até hoje não foi nada resolvido. Com o produto que caia dentro da minha botina, eu perdi todas as minhas unhas. Em dias de chuva, a botina espumava que parecia que tinha sabão dentro dela. Sentia muita dor nos pés.

Quando a gente reclamava que estava doente, eles não faziam nada. Levei uma papelada para eles assinarem e encaminharem para o INSS, mas ninguém se preocupou para assinar e eu então peguei de volta e trouxe para casa. Eles não querem que a gente chame de veneno, só de remédio ou produto. A perna da calça onde o veneno batia, poia tudo, a botina de couro cortava.

Na época que eu entrei lá eu ganhava R$ 80,00 que era o salário, mas tive muito prejuízo para a saúde. Dor de cabeça eu sentia constante, de dia e de noite. Tinha que tomar comprimido que os médicos passavam. Os médicos da firma diziam que não era nada o que eu sentia, que melhoraria, passavam um remédio e pronto. Os remédios eu tinha comprar com o pagamento que eu recebia. A pressão também aumentou muito.. Eu nunca mais fui o mesmo desde que trabalhei na Plantar.”

Maria Tereza Gomes Francelino

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“Depois que meu marido tomou estes remédios todos para ver se combatia esses problemas que ele sentia na firma, ficou nesta situação que a gente passa por dificuldade porque ele não pode mais trabalhar. Perdeu as forças, perdeu o ânimo, a visão e foi perdendo tudo. Hoje é um homem totalmente fracassado.

São bastante fortes as dormências, as dores, as inchações, as fraquezas nas juntas e nos nervos.

O processo na justiça já está entrando para 10 anos e não foi resolvido nada. Primeiro o advogado disse que tava ganho.Avaliou em R$ 10 mil e no dia da audiência tava em R$ 200 mil, desceu para R$ 150 mil e o juiz disse que tava resolvido, mas até hoje não pegamos 1 só centavo. O processo tá abandonado na justiça do trabalho.

O agrotóxico é prejudicial à saúde de qualquer um e até da terra, dos animais domésticos e dos bichos selvagens. A solução seria acabar com os agrotóxicos.”

João Guimarães, 33 anos (comunidade quilombola de Angelim 1)

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João é um representante da Comissão Quilombola do Sapê do Norte (a organização política dos quilombolas na região) e trabalhou para a FASE-ES, uma organização de educação popular focada em contribuir com as lutas locais. Ele é da comunidade de Angelim 1 e tem sido ativo na luta reivindicatória pelo território quilombola roubado pelas empresas. João ensinou agronomia para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) por alguns anos. E tem sido bem sucedido com os experimentos de uso dos conhecimentos tradicionais quilombolas para reconverter as terras contaminadas por agrotóxicos em terras férteis e agroecológicas..

“Desde o final do século XIX que estamos neste território. Era muita riqueza, mas eu já não vi esta fartura. Com a chegada do eucalipto mudou muito. Era época da ditadura. Começou a expulsão dos quilombolas, acabaram com toda a mata e muitos bichos morreram. Os seres humanos eram intimidados a saírem. Poucos resistiram.

Depois de 50 anos da chegada da Aracruz na região, não temos mais água potável para beber, para lavar roupa, tomar banho. Na cabeceira dos rios é despejado toneladas de agroquímicos. Ficamos sem terra e praticamente sem água.

Tem muitas pessoas precisando de terra para plantar e morar.

Perdemos muitos jovens na comunidade que foram embora para grandes centros como São Paulo, Belo Horizonte e Vitória e outros que querem ir.

Em agosto de 2010 entramos numa área em litígio com a Aracruz que historicamente é nossa e estamos lá produzindo alimentos. É uma área importante para a comunidade porque une 2 núcleos e já estava há 1 ano sem plantio. Fizemos parceria com outros movimentos do campo e da cidade. Passamos a projetar a agricultura novamente para aquela área. Foi um fato histórico que há 40 anos não se via, desde a derrubada das matas.

Nunca vamos deixar de brigar pela área de retoma definitivamente. Não temos visto avanço no processo de regularização da terra pelo Estado.

Tem um grupo forte na comunidade que acredita na recuperação das florestas, na retomada, que não querem mais se subordinar a esta empresa e nem temem em falar a verdade.

Meus avós me deixaram um importante legado de amar e respeitar a terra e de trabalhar o fortalecimento da agricultura. Aqueles que não quiserem, paciência. Aqueles que estão indo embora, um dia podem voltar. E aqueles que estão ficando, podem construir progressos e processos na terra, porque os centros urbanos já estão cheios e a gente acredita na qualidade de vida nesta região.

Queremos intimidar a empresa mostrando seus impactos, o que ela destruiu, o que ela acabou, a pobreza que gerou. Tudo o que vier por parte da empresa não é compensação, é um direito que está sendo exigido pelas comunidades.

Somos povos tradicionais, vivemos da terra e precisamos da terra para trabalhar. Queremos de volta o que levaram da gente, ainda que de pouco em pouco. Pode levar anos, mas estamos cientes que começamos no século XXI a reconstruir o território destruído no século XX.”