Parte 5 – Esperança, Resistência e Agroecologia

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Ao longo da história, plantações coloniais dominaram os territórios e deliberadamente destruíram os sistemas tradicionais de auto subsistência que eram originariamente baseados na convivência com a natureza. As plantações foram historicamente constituídas através da colonização e escravidão. Do colonialismo para a “revolução verde” e agora a “economia verde”, pequenos agricultores e comunidades tradicionais, foram marginalizados pela agricultura de larga escala baseada na exportação.

O sistema tradicional da agricultura tem sido desvalorizada e vista como sub produtiva dentro do modelo econômico de desenvolvimento que leva as políticas para o centro dos mercados e os lucros para as classes dominantes, a elite. As necessidades e interesses das comunidades locais não são levadas em conta por esta visão estreita da produção em massa. Consequentemente, as habilidades e conhecimentos das comunidades tradicionais são relegadas a uma “economia informal”, particularmente para as mulheres.

O resultado é uma grande grilagem de terras causando despejos, envenenamento por pesticidas, perda de biodiversidade, poluição dos cursos d´água e destruição pura e simples de tradições culturais, fertilidade do solo e condições de sobrevivência. Diante este modelo destrutivo, movimentos sociais e grupos comunitários continuam a resistir diante as incríveis probabilidades. Populações locais tem lutado para sobreviver recuperando terras e simultaneamente protegendo os recursos naturais e produzindo alimentos.

Sem resistência às indústrias extrativas e ao destrutivo modelo agro-industrial, muita da biodiversidade que ainda resta neste planeta já teria praticamente se perdido. No entanto, todos neste ensaio fotográfico estão praticando algumas das muitas iniciativas de resistência comunitária na região.

Dolores (São Domingos)

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Depois de muitas reivindicações pelo território, pessoas das comunidades quilombolas começaram a limpar as áreas com eucalipto e recuperar as terras usando métodos agroecológicos em pequenas escalas. Em torno de 70 hectares em São Domingos e 35 hectares em Angelim 1 foram convertidos em espaços de moradias e produção de alimentos reivindicados da Fibria-Aracruz Cellulose.

“Aqui era eucalipto. Eles cortaram e nós ocupamos para plantar o que nós estamos precisando: abóbora, aipim, milho, feijão, banana e mandioca. Ninguém aguenta comprar . Eu tenho 7 filhos e 12 netos. O lugar que eu moro é de herdeiro, não dá nem para fazer a casa dos filhos. Então, nós ocupando aqui, daqui uns dias vamos precisar fazer um barraco para morar, porque enquanto eu estiver viva tudo bem, mas depois de eu morrer onde meus filhos e netos vão sobreviver? Tem que ser aqui.

Antes aqui era o Sapê do Norte, desde que eu nasci. Depois é que plantaram eucalipto e foi piorando tudo, secou os córregos, acabou os peixes. As águas que ainda tem dá até medo. Um dia fui no São Domingos e depois tive que tomar banho d eágua quente de tanta coceira que me deu com aquela água.

O futuro que eu quero é a terra porque daí eu trabalho, posso criar uma galinha, um porco. Quando tinha eucalipto aqui, depois que eles aplicavam agrotóxico e o vento batia,eu ficava tontinha e tinha que tomar água com açúcar por causa do problema de pressão que tenho. O veneno aqui prejudicou bastante. Agora nós queremos trabalhar só mesmo com esterco de galinha, estrume de gado, pó de pau podre.

Depois que a gente limpou a terra, esperamos um tempo, até vir a chuva, porque o sol estava muito quente e só depois que veio a chuva que nós plantamos.”

Benedita Maria da Conceição (São Domingos)

Benedita Maria da Conceição

“Nasci e me criei aqui. Tudo era Sapê do Norte, com mata nativa. Era maravilhoso.

Quando a gente tava grande, crescido é que chegou esta firma (Aracruz) que a gente não sabe de onde veio e foi tomando as áreas. Algumas pessoas venderam, mas da parte da minha mãe, o que era de herança, nunca foi vendido nada. Tem muitas terras devolutas ai que são nossas. Os 3 hectares que eu moro hoje é de Dona Carmelita, não é meu, mas eu tô lutando pela herança que minha mãe deixou. Esta firma (Aracruz) entrou e nós ficamos presos.

Agora eu não posso desistir de trabalhar. Tenho 3 filhos, noras e netos. Eu peço a Deus força para eu não desanimar, porque eu preciso de um barraquinho de estuque para morar. Eu tenho direito e preciso de um lugar para mim e meus filhos para plantar, colher, viver, criar.

Plantamos de tudo: mandioca, apim, abobora, feijão, milho, maxixe, quiabo. De sementes e mudas, conhecemos de tudo. A gente tem muitas saudades.

Também precisamos resgatar a água, porque foi tudo acabado. Os peixes acabaram tudo. Mas pelo menos a água para gente beber, cozinhar, lavar, a gente precisa.

Essa área era eucalipto grosso. Depois que cortaram, nós ocupamos para plantar.

A gente corta as mandibas, plana, depois que ela cresce e dá raiz, a gente arranca, raspa, seca, seva, torra, faz a farinha,faz o beiju. Eu adoro este serviço.

Com eucalipto eles jogavam Roundup para matar os matos. Não queremos veneno na nossa roça, porque ele é que mata, dá doença, problema de coração, dá infarte, é perigoso.”

Domingas (São Domingos)

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“Quando tinha eucalipto as pessoas ficavam mais doentes, a gente plantava alguma coisa e não crescia, era seco, as pessoas não podiam trabalhar perto do eucalipto por causa do agrotóxico. A gente via que era um veneno para gente, não podíamos nem passar perto. Hoje a gente se sente mais a vontade. Quando estavam aplicando veneno e o vento batia, chegava nas nossas casas. O cheiro era horrível.

De 5 anos para cá, quando cortaram o eucalipto, o mato tá com mais saúde, tá chegando mais água nos córregos, apareceu algum peixe. Uma nascente perto de casa tá com a água limpinha e a gente fica feliz com a natureza nossa voltando.

Para tomar a terra foi muita confusão e é até hoje. Polícia, gente presa. A comunidade derrubou eucalipto e as áreas mais próximas da comunidade, eles abandonaram. A gente não sabe se eles vão voltar a trabalhar. São nessas áreas que estamos fazendo agricultura, plantando, criando galinha, gado.”

Claudentina Trindade (Angelim 1)

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“Nasci e me criei aqui. Desde os 7 anos ajudava com a mandioca. Aos 9 tirava a goma e aos 12 torrava farinha e vendia para ganhar um dinheiro.

A metade das terras aqui foi tomada. Eu e o pai dos meus filhos tínhamos uma roça com cana, banana, mandioca, muito bonita e eles falaram que vinham derrubar a mata e tinha que passar por dentro da roça com o correntão amarrado a 2 tratores. Eu chorei por ver aquilo que a gente tanto lutou para formar, tudo revirado.

Não uso veneno porque é perigoso. Mas às vezes é difícil para mim sozinha dar conta de tudo, porque os filhos não querem mais me ajudar e eu não tenho dinheiro para pagar alguém para me ajudar. Então eu tenho que plantar menos mandioca.

A firma prometeu emprego mas não deu. A única coisa que veio foi aquele poço, mas mesmo assim sem encanação.

Eu fico muito feliz da gente plantar e colher e depois fazer comida. Eu acho isso uma maravilha. A lavoura de mandioca é uma grande fartura, porque abastece a gente e as criações de galinha, porco, cachorro.”

Música:
Aracruz você acabou com a nossa terra
com as nossas matas
com as nossa flores
Aracruz você acabou com a nossa beleza
nossa riqueza
nossa alegria
Agora eu te pergunto e torno a perguntar:
devolve a nossa terra
nós queremos trabalhar

Mulheres e Agricultura

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As mulheres tem um papel crucial nas práticas tradicionais e agroecológicas. Através da utilização de técnicas tradicionais e dos conhecimentos que as mulheres detêm, elas unem a economia local aos sistemas de soberania alimentar saudável. Mulheres Quilombolas do Sapê do Norte reúnem-se regularmente para organizar e apoiar uns aos outros através de um mutirão, com o plantio de árvores nativas e plantações em terras uns dos outros, além de trocarem sementes. Elas discutem as necessidades específicas em suas respectivas comunidades, partilham recursos, experiências e comem juntas.

Joice (Córrego do Chiado/São Mateus)

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“Falar sobre mulheres para mim é bom e ao mesmo tempo traz algumas dificuldades, porque requer falar sobre mãe, adolescência. As mulheres hoje têm passado muita dificuldade na área rural, porque não há empregos e para a mulher adquirir uma agricultura, ela requer um pouco da mão de obra do homem e tem que ter uma renda mensal. Isto faz com que a mulher se sinta um pouco apreensiva na necessidade de estar entrando por exemplo, na empresa Plantar, onde tem causado muitos problemas na saúde das mulheres.

As mulheres têm dificuldade de se locomover para uma unidade de saúde. A saúde da mulher hoje está difícil de ser mantida. Estamos sem agente de saúde, porque não teve nem uma mulher eleita no concurso público, que vai dificultar ainda mais a saúde da mulher.

As mulheres no campo tem várias atividades, mas que são pouco reconhecidas.
Durante a colheita do café, muitas mulheres se deslocam de suas casas, saem às 5 horas da manhã para tirar café e só retornam às 5 ou 6 horas da tarde. Então ficam longe dos seus filhos, que vão para a escola e não sabem bem o que acontece dentro do seu lar e nem com os seus filhos.

É muito difícil hoje manter mulheres jovens no campo. Eu faço meus artesanatos, faço sabonetes, bolsa, eu pinto e bordo, mas tenho muita dificuldade de comercializar, o que me traz desânimo.”

Pesticidas e organismos geneticamente modificados no Brasil

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O Brasil é o maior consumidor mundial de defensivos agrícolas. O mercado brasileiro de agrotóxicos é estimado em US$ 8,5 bilhões de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química , perdendo apenas para os Estados Unidos . Além disso, pesticidas proibidos em muitos países continuam a ser usados ​​no Brasil, incluindo acefato , acifluorfeno , cyanazine , endosulfan ( que está previsto para ser extinto em 2013) , fluazifop -P- butil , flufenoxuron , formesafen , imazethapyr , lactofen , paraquat dicloreto , paration – metílico , permetrina , profenofos , sethoxydim , thiodicarb , tolifluamide e triazophos . A maioria destes produtos químicos são produzidos por empresas multinacionais como a Bayer , BASF e Syngenta.

O uso de fungicidas praticamente triplicou entre 2006 e 2011, um produto químico usado para combater doenças como a ferrugem da soja. O uso de inseticidas praticamente dobrou no mesmo período e as vendas de herbicidas aumentou quase 45%. Atrelado ao aumento no uso de pesticidas está o aumento de sementes geneticamente modificadas (GM) . Áreas plantadas com sementes geneticamente modificadas têm mais do que triplicado, passando de 9,4 milhões para mais de 32 milhões de hectares desde 2005.

A agricultura industrial em larga escala requer o uso excessivo de pesticidas , inseticidas e herbicidas porque a monocultura em grande escala torna a cultura vulnerável ​​a muitas doenças. Um passo importante para impedir a disseminação desses venenos, que prejudicam gravemente a saúde das populações locais e do meio ambiente, é parar os monocultivos. A Campanha Permanente Contra OS agrotóxicos e Pela Vida está ativa na construção de redes e recuperação de espaços para as práticas tradicionais saudáveis e agroecológicas.

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Antonio Sapezeiro (quilombola de Córrego do Chiado/São Mateus)

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Antonio se mudou da comunidade quilombola de Córrego do Chiado para uma favela no Rio de Janeiro em busca de trabalho quando mal era um adulto ainda. Ele retornou à sua terra natal com um forte desejo de recuperar terras das plantações desastrosas de eucalipto e devolvê-las às terras prósperas agroecológicas. Ele vem fazendo isso desde então.

“Vamos fazer uma ocupação de uma área que estava com eucalipto há 4 décadas e agora estamos retomando para fazer plantações, trabalhar com reflorestamento sustentável, com plantas que vamos dar para a natureza e ao mesmo tempo a natureza vai dar para você. De onde era eucalipto, fazer voltar a dar alimentos, trabalhar a agricultura. O planeta precisa da agroecologia e existem pessoas espalhadas em vários pontos da Terra que se preocupam.

Uma prática camponesa é aproveitar as ferramentas que às vezes ficam jogadas, mas elas têm um valor, não é que sejam atrasadas, se forem usadas para o bem. Ela vai cortar broto de eucalipto e acácia, um mato ruim.

Na área de retomada queremos trabalhar com a permacultura e criações. Isto que é um modelo, não esta tirinhas de terra que a empresa vem dando aí, dizendo que não pode fazer um barraco, ter uma criação. Estamos preparando uma mudas para ser plantada na área que ocupamos, com reflorestamento sustentável. Porque você planta uma árvore hoje e as pessoas pensam: “ só vai dar daqui a 30 anos”. Que dure 100 anos, mas um dia ela vai retornar. Hoje estamos desfrutando de coisas plantadas há muito tempo. Você pode na natureza tirar uma árvore para fazer uma casa, se nós tivéssemos hoje a mata toda de pé. Nós estamos lutando para isso também. Se eu tiver uma mata que eu mesmo plantei com as minhas mãos, em 15 e até 6 anos você tem madeira. Como os índios podem tirar, mas com sabedoria.

A natureza pode oferecer muito, mas eles colocaram na cabeça que as pessoas têm que tirar a mata para plantar capim e eucalipto e não é por aí. Ainda que tivesse eucalipto, mas fosse numa proporção menor. É um escândalo o que tá acontecendo aqui no Sapê do Norte, é horrível. E a segurança alimentar ficando defasada. Tá em falta de alimento. Não era para no norte do estado do Espírito Santo estar em falta de grãos, de feijão, milho. O projeto que queremos levar para estas áreas é o reflorestamento e a produção de alimentos.

Estamos levando mudas de côco, para plantar um reflorestamento sustentável com plantas nativas e ao mesmo tempo côco que com uma fruta dá para fazer de 5 a 6 sacolas de beiju e é muito rico em proteínas. Nós vamos trabalhar nesta lógica de segurança alimentar. Tem também mudas de Jamelão que vamos levar para área para fazer este tipo de ocupação. Ao mesmo tempo uma agricultura pequenininha para ter em volta de casa, com mudas de jiló.

O que me marca muito é a questão da água. 150 córregos secos no Sapê do Norte em função do modelo de desenvolvimento de agricultura como o eucalipto e outras agriculturas vastas. Imagina uma só pessoa ter 2 milhões de plantas de café e ter que dar água todo dia para estas plantas, tirando dos córregos e rios. A região aqui é 70% tomada por eucalipto e cana-de-açúcar. Então os córregos não suportam e isso me marca todo dia e eu quero preservar muito. A água precisa voltar.

Outra coisa são as pessoas que saíram do campo, deixando suas roças dizendo que não dá. Hoje a gente sabe que dá. Nós precisamos de fato retornar e fazer uma agricultura sustentável e que tenha produção.

Uma outra coisa que me marca, é a retomada, a volta. Desde 2007 quando ocupamos o cemitério que tava coberto de eucalipto e agora com a produção. Além das mudas de côco e Jamelão, também vamos levar mudas de banana para plantar na área de retomada. Quando você planta alimentos, você não planta só para você, outras pessoas comem, os animais.

A mensagem que eu deixo para quem está na luta de uma biodiversidade melhor é arregaçar as mangas, partir para estas áreas, ocupar, fazer na força, do jeito que a gente sabe, porque os órgãos do governo eu não vejo muito interesse não.”

Valmir Noventa (MPA)

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(Veja mais de Valmir na Parte 4)

Valmir Noventa é coordenador estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no Espírito Santo. Ele também é um pequeno agricultor que usa técnicas agroecológicas produzindo pimenta, frutas, vegetais, pequenos animais e café. Ele também trabalha na Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e com a Via Campesina.

“O Espírito Santo é um estado no Brasil que mais se consome agrotóxico e as culturas aqui campeãs no consumo de agrotóxico é o café, eucalipto, cana de açúcar, mamão, maracujá, ou seja a fruticultura que são culturas commodities, para exportação. Na cultura do café conilon, por exemplo, se consome pelo menos 24 tipos de agrotóxicos durante o ano. Isso vem causando um impacto muito grande na natureza e na vida das pessoas, aumentando muito os casos de intoxicação, de câncer, levando até a morte. É uma situação alarmante que leva os movimentos que participam da campanha contra os agrotóxicos e pela vida a denunciar este modelo e construir alternativas para os camponeses.

Tem se observado nos municípios onde predominam estas monoculturas, um alto índice de câncer. Tem documentos de mostram que estes municípios são os que mais demandam na Secretaria de Estado de Saúde medicamentos anti-depressivos e para tratamento de quimioterapia. Está diretamente ligado o uso de agrotóxicos às doenças. Alguns médicos até afirmam aos seus pacientes que suas doenças têm relação com venenos, mas na hora de relatar, eles se omitem nos documentos.

O MPA e os movimentos da Via Campesina vêm trabalhando fortemente no avanço das experiências agroecológicas, que comprovam que a agroecologia dá certo, é viável e é capaz de alimentar o mundo. As pequenas propriedades que estão produzindo de forma diversificada no sistema agroecológico, estão produzindo muito mais que no sistema convencional com muito mais diversidade, muito mais qualidade e a família e os jovens estão no campo com gosto. A agroecologia é uma solução não só para o campo, como para a cidade também porque a agroecologia não é só a produção de alimentos saudáveis, é a vida n capo e na cidade de qualidade. A juventude fica n campo com muito mais prazer, gosto e renda. Cada vez mais famílias vêm adotando o sistema de transição do sistema convencional para o agroecológico.

Estamos desenvolvendo experiências que é um pequeno agricultor poder trabalhar com seus vizinhos, com a comunidade, também com a ajuda de alguns técnicos, mas valorizando a sabedoria dos camponeses ali, o resgate das nossas raças crioulas, das sementes crioulas, a recuperação das nascentes, a recuperação dos solos, o reflorestamento, enfim que propicia um amelhor qualidade da alimentação, maior quantidade de alimentos diversificados. Isso faz com que a gente tenha uma relação com os trabalhadores da cidade mais orgânica, porque quando o camponês leva o alimento para a cidade ele está cumprindo com o seu papel na sociedade e fazendo uma relação política importante. Nós estamos nas feiras, em alguns programas comercializando com as escolas, hospitais, creches. O número de feiras dobrou no estado nos últimos anos. A agroecologia provou que é capaz de resolver o problema climático, o problema da saúde, de abastecer a mesa das pessoas com quantidade e qualidade.”

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

Ana Cristina Soprani, 31 anos (Farias/Linhares)

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(Veja mais de Cristina na Parte 4)

Cristina é uma pequena agricultora, mãe de três filhos e trabalha em terra de sua família, no Farias/Linhares. Ela e seu parceiro, Elias (ver Parte 3) são ativos no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Sua família tem lutado por anos contra a opressão das empresas plantadoras de eucalipto.

“Resistir dentro de um contexto deste não é algo muito simples e hoje a gente tem uma contradição social muito grande. Existe toda uma política para incentivo para o agronegócio, para a produção dos monocultivos em larga escala, para produção com bastante uso de produtos químicos, de veneno, de adubo, mas para produzir de forma natural existe um bloqueio. Apesar de entender que existe uma necessidade real de conservação, de preservação, mas política pública para este tipo de agricultura que a gente chama de agroecologia, ainda é um desafio. Porém dentro deste desafio, a gente coloca duas questões que são importantes: uma é a produção de forma natural, sem veneno e o outro desafio é a comercialização desta produção.

Aqui na nossa região, algumas famílias têm conseguido vencer estes desafios que não são fáceis. A nossa família, por exemplo, luta há 10 anos para fazer uma produção limpa na nossa propriedade e ainda estamos num processo, não conseguimos nos livrar totalmente dos produtos químicos, mas a gente acredita estar bem próximo. Não usamos nenhum tipo de veneno nas lavouras, ainda um pouco de adubo químico, mas bem mais reduzido do que era antes. Hoje temos uma proposta de comercialização que consideramos extremamente importante inclusive para aliança dos trabalhadores do campo eda cidade que é a comercialização em feiras livres.

Antigamente para se ter uma idéia, a gente produzia de tudo, os alimentos, a carne, tudo o que a gente precisava para sobreviver com dignidade. Também não tinha muito dinheiro, isto é fato, e não tinha muita mordomia como água encanada, energia, computador… isto não existia. Mas as famílias viviam com dignidade. Com a chegada da revolução verde, meu pai conta que mais ou menos na década de 80 quando as agrônomos chegaram aqui, eles falaram: “ Seu Domingos, se você continuar produzindo seu café sem adubo químico, a gente não tem como vender seu café.” Então começou-se a usar o adubo químico, o veneno e houve um incentivo muito grande para o que eles chamavam de modernização da agricultura.

Só que esta modernização não era para a gente. O que ela nos trouxe? Dependência dos produtos químicos, do adubo, do veneno, o monocultivo, porque para ser moderno, você não podia ter de tudo, o alimento mesmo ia ser comprado no supermercado, você teria dinheiro para isso. Então se criou uma ilusão de que o moderno era muito bom e o governo na época incentivou muito, usou inclusive os aparatos de Estado, de assistência técnica para vir para o campo, para fazer com que os agricultores acreditassem de fato que a agricultura moderna seria muito importante para o campo.

O que aconteceu foi que os agricultores deixaram de produzir alimentos para produzir monocultivo a base d produtos químicos. Gerou-se uma falsa ilusão de que havia muito dinheiros. Realmente começou a circular mais dinheiros, porém este dinheiro teria que ser reinvestido na lavoura para comprar mais veneno, mais adubo e comprar alimento e remédio, porque antes a gente tinha os chás e outros que produzia, mas ficou como cultura do atraso e então agora a gente tem que comprar o remédio e diga-se de passagem, ficamos muito mais doentes do que antes, porque além da gente se envenenar na lavoura, a gente também come o alimento envenenado que a gente não sabia a origem. Então a idéia de que o moderno seria o bom, criou um estigma na cabeça das pessoas e os próprios camponeses passaram a acreditar que aquilo era natural, que comprar alimento era natural, que produzir a base de veneno era natural.

Com o tempo acabou-se esquecendo algumas das tradições de produção, de observar as fases da lua para se produzir, de observar o tipo de solo, de semente. As sementes foram algo essencial para a manipulação dessa cultura: os agrônomos chegaram com sementes melhoradas que a gente podia plantar e ter uma produção muito maior. Só que por incrível que pareça, estas sementes não se reproduziam, você plantava uma vez e depois podia plantar de novo, você tinha que ir na loja e comprar novamente as sementes. Então a gente acabou perdendo o que tínhamos de mais importante que era o controle das nossas sementes crioulas. O volume de dinheiro que a gente tinha passou a ser investido na compra de sementes, de veneno, de adubo, de remédio e de alimento, entrando num círculo vicioso muito forte.

Muitos agricultores acreditam até hoje que este círculo é algo natural, porque acha-se num a condição moderna. Nós começamos a participar de uma organização social há alguns anos atrás que é o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) e organizados a gente percebeu que entrou num círculo vicioso e que não tínhamos necessariamente que estar dentro dele para ser moderno. Nós nos tornamos empregados na nossa própria terra, trabalhando para as multinacionais. A gente descobriu isso, o que não é muito fácil. A gente foi vendo que não tinha mais controle da produção. Percebemos que de forma organizada a gente podia quebrar esse círculo vicioso, o que foi muito doloroso porque requer toda uma reconstrução no solo que já está todo desgastado pelo uso dos produtos químicos, requer mão de obra para se produzir novamente com diversificação.

Na agricultura convencional, nos monocultivos, um homem com uma bomba dá conta de fazer a produção da lavoura. Na agricultura tradicional é diferente, a família ta envolvida no processo: o menino vai catar lenha, a esposa cuida da horta e dos alimentos que estão o entorno da casa, o marido vai capinar o feijão, tem vários tipos de cultura que envolve toda a família. Neste processo para a agricultura convencional, toda a família ficou fora.

Reverter isso não é fácil, requer inclusive muito estudo, muita técnica e eu diria que modernizar hoje é produzir de forma natural. Ser moderno hoje é entender quais as fases da lua para se plantar a raiz, o alface… é entender como se faz uma calda para não se precisar usar o veneno na lavoura. Modernizar hoje é muito mais que o pacote convencional da Monsanto, da Bayer. Entendemos hoje que para ser moderno e ser libertos das empresas multinacionais, precisamos avançar para a produção de alimentos.

Então hoje a gente tem uma produção muito diversificada e a gente consegue fazer uma relação muito importante na cidade com os trabalhadores. A gente trabalha para produzir alimentos saudáveis para a classe trabalhadora que não tem acesso a estes alimentos também nas cidades. A gente produz parimeiramente para se alimentar, mas também produzimos para os outros trabalhadores. Não queremos ter um selo para vender 5 vezes mais caro para a burguesia comprar, é diferente disto.”

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

A reivindicação do território quilombola

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Em 2006 comunidades do Sapê do Norte começaram a reivindicação de aproximadamente 10 mil hectares de terras que estavam com a Aracruz Celulose. Esta terra primeiramente era a ligação entre duas comunidades com um cemitério comunitário e importantes córregos e áreas agrícolas. Desde que iniciaram a reivindicação de seu território pelo governo, quilombolas da região continuaram a retomar terras para a agricultura local, reconvertendo cuidadosamente plantações de eucalipto em culturas alimentares usando métodos tradicionais e agroecológicos.

Vídeo Luta Quilombola Aonde as árvores são um deserto

Chapter 4: Carbon Trading: How it works and why it fails