Parte 2 – A cadeia de reações da indústria petroleira

Comunidad Palhal_webAs indústrias intensivas em terras e extrativas nunca impactam uma região ou comunidade apenas. Enquanto atingem muitas regiões através da exploração, extração, transporte e refino, o petróleo também produz vários co-produtos. Uma ampla gama de produtos incluindo gás natural e plásticos dependem do petróleo como material primário. Também outros, tão bem conhecidos na região, como os fertilizantes são produzidos a partir do gás natural.

Em 2011, a Petrobras anunciou planos de alocar US$13.2 bilhões para projetos de Gas e Energia para o período de 2011 a 2015, dos quais US$5.9 bilhões serão usados para converter gás natural em uréia, amonia, melamina e metanol,e outros produtos fertilizantes. Uma das maiores fábricas está programada para ser construída no meio de Palhal, localizada no interior de Linhares, Espírito Santo.

O Complexo Gás Químico de Fertilizantes Nitrogenados (UFN IV) é justamente um dos maiores projetos que a Petrobras tem investido para os próximos anos, antecipando o aumento de volume de petroléo. O Complexo UFN IV está planejado para ser implantado em 2017. Para moradores de Palhal, ofereceram dinheiro para serem realocados. A maioria dos habitantes não planejam se deslocar enquanto outros não vêm outra escolha e alguns creem em promessas grandiosas.

Maria de Penha Rebeis, Petranilia Cortino Morize e Natalia Vito Morize, Palhal

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Maria de Penha, Petranilia e Natalia vivem em Palhal em casas de estuque. No ano passado um advogado da Petrobras visitou Maria e sua família para comunicar a eles que eles seriam realocados em breve. Quando o advogado da PEtrobras prometeu casa de concreto, a família aceitou a proposta e em breve vão mudar para apenas 2 quilômetros de distância de onde vivem agora e ao lado de onde pretendem instalar a enorme poluente fábrica.

“Nós estamos sendo despejados pela Petrobras porque eles querem fazer aqui na nossa região produtos químicos, não petróleo, mas melamina, methanol, gás e uréia. Então nós estamos sendo despejados daqui para outra localidade onde eles nos propuseram. Não é que nós estamos satisfeitos com isso, mas nós sabemos que esta casa tem tão pouco valor… então nós estamos concordando em ir, esperando ter uma vida melhor. Muitas pessoas não estão concordando… nós temos a humildade de aceitar esta proposta porque vai ser uma casa melhor.”

Cecilia e Antonia

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Cecilia and Antonia são nascidas em Palhal e vivem vizinhas de suas famílas na vila. Elas foram abordadas pela Petrobras pela primeira vez, um ano antes desta entrevista. Sair desta area não é uma opção para elas, mas enquanto a pressão aumenta, elas começam a ter medo do futuro.

“Eles estão oferecendo aqui muito pouco e nós estamos muito preocupadas. Eu não quero viver em outro lugar, eu nasci aqui, você sabe… Agora eles estão pressionando as pessoas para mudar para outro lugar, muita pressão. Eles pressionam a gente e nós perguntamos: ´mas se mudar para onde?´ Eles vão nos dislocar e isso é uma injustiça… Sobre o futuro, nós não sabemos, porque não temos educação. Eles dizem que vão dar emprego, mas nós não podemos porque não temos educação. Então nós não vemos futuro para ninguém. Eu quero ficar aqui. Eu não quero sair daqui. Eu não quero sair. Eu não tenho desejo de sair daqui. Eles dizem que vão fazer nossa vida melhorar, mas eu não acho que vai ser melhor para gente não. Vai ser pior para nós. Não melhor, pior porque ninguém está preparado. Nós teriamos que começar novamente, mas eu não tenho preparo. Então o que eles oferecem não tem nenhum valor para nós, mas só para eles.”

Elias Alves dos Santos

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Elias Alves é uma liderança ativa do Movimento dos Pequenos Agricultures (MPA) e da Via Campesina. Elias, Cristina e suas três crianças vivem a aproximadamente 20 quilômetros de onde está projetada a fábrica de fertizlizantes em Palhal. Resistindo a forte pressão das plantações de eucalipto e aos incentives para o uso de pesticidas, eles plantam várias culturas como café, pimento e mandioca usando o método agroecológico.

“Para a população local isto não representa desenvolvimento, ao contrário, para os trabalhadores aqui isso representa o fim do mundo, o fim do mundo. Este investimento público-privado do governo é na verdade um investimento publico para produzir riquezas acumuladas para empresas privadas… Este tipo de “desenvolvimento” é o ponto de vista do Estado. Mas do ponto de vista dos movimentos da agricultura, nós temos outra proposta para o campo, uma que é o verdadeiro desenvolvimento: a proposta de produzir alimento.

Hoje neste país os pequenos agricultores produzem 70% dos alimentos para o país com 40% de investimento dos recursos públicos para a agricultura. Enquanto o agronegócio produz apenas 30% dos alimentos do país, mas usa 86% dos fundos dos recursos públicos. O agronegócio gera apenas 1,3 empregos a cada 100 hectares enquanto os pequenos agricultores geram 17 empregos a cada 100 hectares. Nossa proposta é um desenvolvimento com gente, um envolvimento da pessoa com a produção.”

Movimento de Pequenos Agricultores

Rosemare Pereira de Freitas

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“Nasci e moro no Palhal há 23 anos.
O impacto é grande porque é uma comunidade pacata e o que mais me incomoda, é o impacto social com os peões e trabalhadores que vão vir, fazer alojamento. Não temos infra-estrutura para estar acomodando estas pessoas.
Vão fazer um complexo gás-químico e a empresa que vai se implantar é a Petrobrás. Dizem que será em 80 hectares de terra. Algumas pessoas que estão onde vai ser implantado o complexo, vão ter que sair, serão desapropriadas. Os outros não terão que sair.
As negociações são com o governo, a Petrobrás ficou fora desta etapa.
Com algumas pessoas já negociou, mas conosco não porque nós colocamos na justiça, porque ofereceram uma mixaria, uma quantia vergonhosa. O único meio foi colocar na justiça, porque o governo usou de métodos baixos com a gente, falaram que se não saísse por bem, teria que sair na força e isso não se fala.”

Sebastião de Freitas

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“Se não tiver jeito a gente sai. Mas que é bom a gente sair do lugar da gente, não é não. Cheguei aqui com 8 anos de idade e vou fazer 63. Já estou esquematizado no lugar. A família trabalha toda junta e tira o pão de cada dia. E tem também a minha mãe com 80 e poucos anos que vive com a gente.
A população fica amedrontada. Eu não tenho motivação nenhuma para sair daqui.
O dinheiro que eles ofereceram é pouco. Não dá para construir as casas e nem pagar as benfeitorias.
A primeira vez chegaram aqui furando para fazer análise da terra. Depois de 1 ano voltaram furando a terra e dizendo que tavam caçando petróleo. Depois acabaram com aquilo e daí já virou uma indústria que eles querem colocar. Não tem mais a história do petróleo. Chegaram pegando os documentos de um e de outro e dizendo que o pagamento de uma casa como esta, daria para fazer 3 casas, seduzindo assim o pessoal.
Eu fui nascido e criado na roça. O que eu gosto é da roça. Eu to igual a um passarinho quando perde o ninho, se eu tiver que sair daqui, vou ficar perdido. Eu não vou achar outro lugar como este para morar, com água boa.
Quem tá querendo desapropriar é o governo, para a Petrobrás.”